• ATENÇÃO!!! È permitida a utilização, total ou parcial, das idéias e dos textos abaixo, desde que indique a autoria da Profa. Maria Lúcia de Freitas Beraldo. A referência bibliográfica deve ser feita da seguinte maneira, de acordo com a NBR 6023 – ago./2000 : 

    Beraldo, M.L.F. Título do texto Disponível em: www.sexologiajf.com.br | Acesso em:(colocar a data em que acessou a página).
Orgasmo


1. - Sinto muito prazer quando faço amor com meu namorado, mas não sei se chego ao orgasmo. Como posso saber se atingi o orgasmo?

Fisiologicamente, o orgasmo é um reflexo oriundo de uma tensão progressiva e um repentino relaxamento, resultando em uma agradável sensação de descarga, que concilia a perda de certos sentidos e aguçamento de outros. Sendo um mecanismo que envolve tanto o aspecto psicológico como o biológico, a experiência varia de pessoa para pessoa, é muito difícil fazer uma descrição padrão. Na verdade, até para uma mesma pessoa pode ocorrer orgasmos diferentes, mesmo que a relação se dê com o mesmo parceiro, pois vai depender se naquele momento está havendo uma estimulação adequada e se há receptividade suficiente para tal estimulação.
Este tipo de dúvida é muito freqüente entre mulheres com pouca ou nenhuma experiência em auto-estimulação (masturbação). Isto acontece porque é através da auto-estimulação que a pessoa aprende a se conhecer em termos de resposta sexual, percebendo a própria sensibilidade. Após ter experienciado o orgasmo por auto-estimulação, a mulher alcança o orgasmo de forma mais tranqüila quando em contato com o parceiro, porque ela já sabe como gosta de ser tocada, e sabe o que pode esperar desta intimidade, o que aumenta ainda mais a excitação. Talvez seja essa a direção para que você conheça as respostas de seu corpo.
Um abraço,

2. Só chego ao orgasmo me masturbando. Sou frígida? O que devo fazer?

Embora não tenha fornecido muitos dados, a princípio, me parece que não há nada de errado com você.  Acredito que esta sua dúvida tenha mais a ver com as crenças ligadas à sexualidade, principalmente àquela na qual o orgasmo "principal" deve ser aquele conseguido pela penetração do pênis na vagina. Isto não acontece só com você: durante muito tempo, mesmo no meio acadêmico, acreditou-se nisso. Você já deve ter ouvido falar em Sigmund Freud, o pai da psicanálise. Pois é, Freud achava que a mulher, ao tornar-se psicologicamente madura, deixava de usufruir o orgasmo vindo da estimulação no clitóris, passando a experimentar aquele vindo da penetração. Hoje em dia, sabe-se que o clitóris é o único órgão que criado pela natureza visando especificamente o prazer feminino. Isto não é bacana? Com as pesquisas realizadas posteriormente, descobriu-se que o número de mulheres que necessitam de estimulação é muito maior do que se imaginava, o que forçou os estudiosos da sexualidade a repensar a teoria Freudiana. Atualmente, observa-se que até mesmo as mulheres que acreditam que não necessitam de estimulação no clitóris acabam preferindo posições de coito em que, direta ou indiretamente, ocorre uma pressão do púbis masculino sobre o clitóris. Portanto, se é esse o seu caso, pode ficar tranquila.
Contudo, se você só tem orgasmo se masturbando sozinha, e sofre completa inibição erótica quando está na companhia de seu parceiro, é provável que esteja ocorrendo um bloqueio, que pode ter origem tanto psicodinâmica (isto é, ligada ao seu desenvolvimento afetivo-sexual), ou relacional, (ou seja, provocada por problemas referentes ao seu relacionamento com seu parceiro).   Nestes casos, considero bastante adequado um apoio psicoterapêutico.

3. Como saber se minha namorada atingiu mesmo o orgasmo? Gostaria de saber isso, porque é muito difícil saber se uma mulher não está mentindo.
O leitor pediu para não ser identificado
Esta é uma questão que extrapola o campo da sexualidade. Um casal sabe que o outro não precisará lançar mão de mentiras quando a vontade de ficar juntos é clara para os dois lados. Deste modo, mesmo um sabendo que não poderá satisfazer as expectativas do outro em um determinado momento, se sentirá seguro para se mostrar sem máscaras, pois sabe que aquilo não irá colocar em risco a parceria, e que as dificuldades serão vistas como obstáculos a serem vencidos pelos dois. Especificamente no campo da sexualidade, embora existam outros motivos, o que leva uma mulher a fingir o orgasmo para o parceiro geralmente é a insegurança quanto à perenidade da relação. Nestes casos, percebemos que o problema está na busca da mulher em satisfazer as expectativas sexuais do parceiro e na sua insegurança diante da atitude dele se estas expectativas forem frustradas. Por outro lado, o mito de que o homem deve saber tudo sobre sexo, incluindo como e onde tocar, qual o momento de iniciar a penetração, etc., coloca uma responsabilidade muito grande nas mãos masculinas. Isso funcionava bem até algumas décadas atrás, onde o prazer e o orgasmo feminino nem eram cogitados. Se você quer ter maior segurança em relação ao prazer da sua companheira, pergunte a ela! Hoje em dia, encontram maior satisfação os casais os quais o homem permite à mulher dizer e mostrar como, onde e quando gosta de ser tocada. Desse modo, o parceiro não precisará adivinhar o que ela está sentindo e não ficará inseguro em relação a estar agradando o suficiente ou não.

4. Fico bastante excitada, mas tenho dificuldades de chegar ao orgasmo. O que pode ser?
 Andréia - por e-mail

Cara Andréia,
Não ficou muito claro se, apesar das dificuldades, você chega ao orgasmo algumas vezes. Embora tenha fornecido poucos dados, o seu caso sugere um quadro chamado tecnicamente de anorgasmia. Ele pode se desenvolver a partir de vários fatores. Um dos principais é a educação muito rígida em termos de sexualidade, associando-a à algo proibido, feio e até sujo, de modo a repressão erótica acaba sendo internalizada e passa a acompanhar a pessoa até a sua vida adulta. Deste modo, cada experiência sexual é sentida como um misto de excitação e condenação, dificultando a chegada ao orgasmo. Outro fator que também pode interferir na vivência plena da sexualidade é a pouca experiência sensorial, principalmente em se tratando da masturbação, já que é uma forma de autoconhecimento das possibilidades de sensações que o corpo pode experimentar.
Encontramos também como fatores que podem afetar a capacidade de orgasmo questões o "medo da entrega", o medo da própria sensação do orgasmo, e a necessidade extrema de agradar ao parceiro, o que faz com que a pessoa se desligue das próprias sensações e passe a se preocupar com o próprio desempenho sexual.  Citei apenas algumas das causas, mas como você pôde ver, as possibilidades são várias, e raramente a causa é única.
Este é um problema que acomete boa parte das mulheres em algum momento da vida - isto é, mulheres que já tiveram orgasmo e em algum momento deixaram de tê-lo. Mas há também mulheres que nunca o experimentaram. De qualquer modo, é uma situação que gera muitos conflitos quando a mulher tem um parceiro estável, uma vez que há uma cobrança interna e há também a cobrança do companheiro. Além disso, é comum que o parceiro queira manter sua rotina sexual , e muitas vezes a mulher acaba cedendo sem vontade - o que torna a atividade frustrante e sem colorido - ou comece a se esquivar, o que pode gerar conflitos e discussões. De qualquer modo, sugiro que você procure um profissional especializado na área, pois, na maioria das vezes, a terapia sexual é bastante eficiente nestes casos. Um abraço , e boa sorte!

5. Namoro há cinco anos e tenho relação sexual com meu namorado há, pelo menos, quatro anos e dez meses. Só que existe um problema: nunca cheguei ao orgasmo sem eu mesma também me tocar. Tenho vergonha de conversar sobre isso com ele. Qual deve ser meu problema? Existe solução?

A leitora pediu para não ser identificada

Esta é uma questão que tem sido muito levantada nesta coluna, tanto por homens quanto por mulheres.  Não, a necessidade de estimulação no clitóris para a mulher chegar ao orgasmo não é sinal de problema sexual, pois a finalidade dele é esta mesmo. Mesmo que algumas mulheres afirmem que "não precisam" de estimulação, é importante lembrar que até quando não há estimulação direta (por exemplo, o dedo da própria mulher ou do parceiro), há aquela indireta, como a pressão do púbis do homem quando há o encontro dos genitais.
Essa idéia de que a mulher que precisa de estimulação possui dificuldades sexuais surgiu no início do século passado, mais ligada a uma suposta dependência feminina do órgão masculino do que uma questão morfofisiológica. Afortunadamente, com os avanços nos estudos sobre a sexualidade humana, este conceito caiu por terra há décadas!
Infelizmente, como acontece com muitos temas relacionados à sexualidade, certas idéias acabam se tornando crenças e cristalizando-se em mitos, sendo passados de geração em geração, perpetuando-se.  Deste modo, quando agimos de acordo com o mito, ele se confirma. Mas quando não nos enquadramos nele, sempre achamos que o errado somos nós! Por isso é tão importante que tenhamos um espírito crítico, pois só assim poderemos desfrutar da nossa sexualidade sem a preocupação de nos enquadrarmos num suposto padrão de "normalidade".
Contudo, deve ser observada com cuidado a sua dificuldade em falar sobre sexo com seu namorado.  Faço esta ressalva porque este tipo de constrangimento é muito comum entre os casais que procuram a terapia sexual, pois ele acaba criando um desencontro, onde cada um tem que adivinhar o que o outro está querendo, sentindo ou pensando em termos sexuais. Pense nisso!  Certamente, uma entrevista com um profissional da área poderá auxiliá-la, pois poderão ser discutidos exatamente os mitos, crenças e tabus que envolvem a sexualidade e que fazem com que você se sinta envergonhada mesmo diante de uma pessoa tão íntima. Um abraço, e boa sorte!

Maria Lúcia Beraldo
Psicóloga/mestre em Sexualidade humana